quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Minha História (Capítulo 14)

Um Triste Encontro

23 de abril de 2004
 (imagens google)
            Neste dia, já estava cansado de tanto conversar com Irmã Elizabete, havíamos marcado a conversa para após o almoço, as 12:30 eu já estava em sua casa, ficamos conversando enquanto aguardávamos Aparecida, que já estava para chegar, era 1:40 da tarde, já havíamos conversado sobre quase tudo, inclusive sobre Lucas, quando ela chegou.
            Tão logo iniciamos o encontro, eu fiz a minha proposta, naquele dia eu não queria fazer a positivação, queria conversar, esclarecer algumas coisas.
            Comecei contando tudo que havia descoberto nas conversas com minha mãe, como por exemplo que meu era muito ciumento, ficava semanas sem falar nada por ciúme, me rejeitou até o segundo ou terceiro mês de gestação quando minha mãe contou que estava grávida. Descobri que eu não sou fruto da segunda gravidez de minha mãe, mas sim da terceira, quando minha mãe engravidou pela segunda vez, por acaso, sem planejar, um certo dia, numa discussão, no terceiro mês de gestação, por motivos banais, meu pai a fez passar tanta raiva,  chegando até a dizer que ela o havia traído e que o filho não era dele, que ela acabou passando mal, foi levada ao hospital pelo vizinho, perdeu o bebe. Quando ele chegou a hospital, a primeira coisa que perguntou foi porque chamou o vizinho para levá-la ao hospital ao invés de mandá-lo chamar (detalhe, ele estava na lavoura a aproximadamente 40 minutos de casa).
            Sempre percebi que meu pai mimava muito minha irmã (mais nova que eu) e a tratava melhor do que a mim, fazia o mesmo com meu irmão mais velho, detalhe, a gravidez do meu irmão e minha irmã havia sido preparada, desejada, apenas eu vim de enxerido como sempre dizia meu pai, talvez por isso ele sempre me tratou com indiferença.
            Ao terminar de contar tudo isso, Irmã Elizabete perguntou-me o que estava sentindo, logo respondi, raiva, muita raiva, Aparecida acrescentou que isso é bom, é sinal de que mexeu em alguma coisa aqui dentro.
            Perguntei também sobre a positivação, pois minha mãe me disse que quando ficou grávida pela segunda vez, meu pai queria outro menino e eu vi claramente na positivação, por várias vezes, meu pai desejando uma menina. Aparecida e Irmã Elizabete disseram praticamente as mesmas coisas, o inconsciente não mente, nosso inconsciente é Deus e Deus não mente. O que pode ter acontecido, é que com tantos outros problemas, tenha passado despercebida alguma palavra de meu pai em relação a isso e minha mãe não tenha percebido, o que é muito compreensivo no caos em que se encontravam, e também que minha mãe tenha tido uma visão de um ângulo diferente da visão do meu inconsciente. Uma coisa ficou provada, independente do desejo ou não de meu pai de ter uma menina, a conclusão não podia ser outra, com um exemplo de pai que não me traz nenhuma saudade, só raiva e angustia, imerso uma realidade onde minha própria mãe afirma ter dito várias vezes que homem não presta, a conclusão não podia ser outra, quem desejaria ser homem com referências desse tipo?
            Confesso que cheguei ao final desta conversa muito triste, confuso, desanimado, minha única vontade era ter um AMIGO para abraçar, não falar nada, apenas chorar, chorar por tudo que estava sentindo e VIVENDO.
            Irmã Elizabete perguntou o que eu gostaria de fazer nos próximos encontros ou se eu queria parar, fiquei um pouco assustado, pensei ter entendido, de acordo com sua proposta no início do trabalho, que ela tinha planos, diretrizes para os trabalhar as diversas áreas de abrangência da vida de uma pessoa. Já que havia me perguntado, lhe disse o que mais me amedrontava, estava muito inseguro, com muito medo de aparecer em púbico, falar a uma platéia, principalmente com jovens, a vontade que tinha quando me encontrava diante destas situações era de fazer como os avestruzes, enfiar a cabeça em um buraco, me trancar em um quarto escuro onde ninguém pudesse me ver. Ela perguntou-me o porque de todo esse medo, medo que descubram quem realmente você é? Quer dizer que tens vergonha de quem és? Quer dizer que você tem preconceito contra você mesmo?
            Não respondi nada, nem foi necessário, minhas lágrimas falaram por mim tudo o que seria necessário, elas não disseram nada, se levantaram, me abrasaram, um abraço forte, caloroso, de completa acolhido, de acolhida como sou, como Deus me fez.
            Assim terminou este encontro, com toda esta confusão que ficou em minha mente, ela pediu para eu fazer alguma coisa criativa, o que no momento, com todo o desanimo que estava, me deixou mais irritado ainda, normalmente a grande maioria dos gays são bastante criativos, mas por enquanto, eu não me acho nem um pouco criativo, no entanto, vamos lá, alguma coisa tenho que fazer até o próximo dia 07.

            ATUALMENTE:
            Acho interessante deixar aqui minha visão desses acontecimentos hoje. Critico ferrenhamente como as pessoas podem ter a cabeça tão fechada para novas idéias, para observar o diferente, simplesmente para se questionar, hoje isso caiu de moda, se bem que nem sei se algum dia isso foi moda, mas é fato, você não pode perguntar, questionar a sociedade. Hoje observo que, na época em que vivi isso tudo, já não bastasse o calor da situação, eu também não questionava, eu também não perguntava nada, não me perguntava, por exemplo, porque meu pai agia daquela forma, porque ele era tão ciumento, porque ele era tão fechado.
            Se, naquela época, eu tivesse me feito estas perguntas, talvez este texto acima seria bem diferente, não daria ênfase a aquilo que meu pai tinha de ruim, ou mal trabalhado assim digamos, mas descreveria como foi dura sua infância, ou melhor, descreveria que ele não teve infância, estudou até a 3° série do primário, 3 anos muito sofridos devido ao abuso que agüentava dos colegas por ter uma simples deficiência na boca, o que fazia que ele falasse de forma fanhosa, terminando a 3° série, seu pai o tirou da escola, dizia que já era suficiente, e o colocou para trabalhar na lavoura com os irmãos mais velhos, viu seu pai atirar no pé de mamão perto da cozinha (com uma espingarda) porque sua esposa, mãe do meu pai, havia deixado uma dobra em uma de suas camisas, camisas que ela despendia tanto tempo para passar com ferro a brasa, talvez todo o ciúme de meu pai provinha do fato de ver o seu pai gastar boa parte do seu dinheiro com prostitutas e negar uma camisa nova aos filhos para ir a igreja aos domingos, talvez tanta revolta e confusão se deva ao fato de ele meu pai ter caso com sua primeira namorada para sair de casa o mais rápido que pudesse.
            Hoje eu digo, com todos os seus problemas, com as suas preferências, com sua incompreensão, com a falta de carinho, meu pai foi um VITORIOSO.

9 comentários:

  1. Olá menino
    Leio atentamente sua história e me emociono muito.
    Abração

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  2. Oi estou aqui e já deixei meu voto. Comecei a ler a sua história do triste encontro. É muito emocionante.

    Beijos

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  3. Olá amigo, mais um capítulo da tua emocionante história... Continue, é muito importante isso que você faz, e eu amo te ler! Carinhos meus a ti, viu... Bjsss agora vou ali dar mais um votinho a você...

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  4. Identifiquei-me com o texto... Minha vida deu uma reviravolta em 1 mês... depois que comecei a ver meus pais de outra maneira... e a não cobrá-los tanto!!!

    Viver é amar...

    ...AME!!!

    ***

    ;-)

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  5. Olá amigo, olha eu aqui de novo!rsr...
    Vim te deixar um abraço, meu carinho
    e te convidar a buscar um selinho que
    tenho pra você lá no meu blog... Te
    espero lá ok.
    Linda noite pra ti... Bjsss

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  6. Acho que tudo isto faz parte, não entendermos nossos pais em outras épocas faz parte, mas ainda bem que nós crescemos, nos maturamos por assim dizer. E para isto temos que passar por tudo muitas vezes. Que bom que hoje você enxerga de outra forma sabendo das dificuldades que seu pai passou, sabendo da pessoa dele.

    Grande abraço!

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  7. apesar do sumiço quero te dizer que nunca canso de ler seus longos e envolventes textos

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  8. Meu amigo, já tens um livro publicado?
    Porque senão, já está na hora de divulgar teus escritos que são fabulosos. Agora a sociedade, ah a sociedade...
    Também vou dar uma chegadinha alí e depositar meu voto.
    Um abraço, bjs n'alma.

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  9. Passei para conhecer seu blog, fiquei envolvida em ler seu texto muito bem escrito.
    Te sigo com carinho
    Abraços...
    Preciosa Maria

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