domingo, 8 de agosto de 2010

Minha História (Capítulo 11)

Positivação

15 de março de 2004

            Estava um tanto ansioso, hoje foi o segundo encontro com ADI, e também foi muito bom.
            Logo no início, Aparecida perguntou-me como estava depois daquele primeiro encontro, disse-lhe que um tanto revoltado com o que havia descoberto, tanto ela quanto Irmã Elizabete concordaram, disseram que é normal, sinal que está surtindo efeito.
            Pediu que eu me colocasse numa posição bem confortável, deitei e comecei a relaxar, o corpo todo, ouvindo uma serena música de fundo. Logo após pediu que eu me imaginasse numa cachoeira, mergulhasse e que procurasse uma trilha que havia ao lado da cachoeira, que a seguisse até encontrar uma casinha, pequena, bonitinha, mas tinha as janelas todas fechadas. A porta estava aberta, então entrei, era escura, estava limpa, porém vazia, pediu que eu procurasse o porão, o encontrei, desci a escada de 9 degraus, era muito escuro, empoeirado, cheio de teias, e a escada estava com o corrimão quebrado.
            Convidou-me a fazer uma limpeza neste porão, nossa..., como deu trabalho, durante esta limpeza, encontrei duas pequenas janelas que, abertas, ajudaram a clarear o ambiente. Ao terminar a limpeza, pediu que eu olhasse para a escada de 9 degraus, pediu que eu observasse se havia algum degrau quebrado, havia, o sexto degrau estava com a tábua rachada em duas partes, então ela disse:
            - Peça a sábia para te levar ao sexto mês de gestação, te mostrar esta imagem.
            Meio embaçado aos poucos tudo foi tomando forma, não consegui entende o que meu pai falava com minha mãe, os dois estavam sozinhos, estavam exaltados, mas não conseguia ouvir o que falavam, senti muito medo, insegurança, incerteza:
            - Peça à sábia que lhe mostre números com o oposto desta sena.
            Ela me mostrou o 03, o 07 e o 3, em ambos, os dois primeiros se referem as respectivos meses de gestação, o último já em anos de vida, fiscalizei senas diferentes, todas alegres, um forte sentimento de acolhimento, carinho, conforto.
            Depois de ver estas senas, voltei ao sexto mês de gestação, porém não consegui mais visualizar aquele sena ruim, negativa, via sorrisos, abraços, um ambiente feliz, não sentia mais medo, a sena havia sido substituída por senas positivas de outros períodos, elas se referiam a este método como “positivação”.
            Voltei ao porão, olhei a escada, estava perfeita, o sexto degrau estava completamente novo, subi a escada e olhei a casa, estava mais clara, arejada, havia aparecido uma cama, uma pia, um fogão e uma cafeteira, alguns copos sobre a mesa. Lembra-se do capítulo anterior?  A casa passou anos abandonada, apenas agora esta sendo decorada.
            Terminando de olhar a casa, pediu que eu voltasse para a cachoeira, que eu mergulhasse novamente, ela contou vagarosamente de 1 a 10 e pediu que eu abrisse os olhos bem devagar, e eu voltei...
            Ao relatar como foi, disse que menos provocante que o anterior, pois não consegui, ou não quis inconscientemente, escutar o que meu pai falava para minha mãe.
            Conversamos mais um pouco e Irmã Elizabete, tomando a palavra, disse que já havia mais luz em meu olhar, no entanto, também havia algo me preocupando.
            - O que mais te preocupas neste dia?
            - Ja sabes, respondi ligeiro.
            - Sei não, sei apenas o que você me diz, só você pode se abrir ou não.
            Confesso que estava bem envergonhado, não tinha idéia se Aparecida sabia sobre minha homossexualidade, nem imaginava como ela iria reagir, mas... decidi correr o risco:
            - Por causa do Lucas (seminarista também, ficávamos juntos no quarto quando eu ainda estava no seminário, comentei sobre ele também numa das primeiras conversas), o Lucas que está me preocupando, disse sem olhar para Aparecida, e isso foi o suficiente para conversarmos mais uns 40 minutos.
            - E isso tem solução, perguntou-me Irmão Elizabete.
            - Sim, basta que eu aprenda a lhe dar com este sentimento. Bem, depois desta resposta, qualquer um que estivesse ali entenderia que o estou amando, amando e sofrendo por amar.
            - Depois que vocês conversaram, mudou algo entre a amizade de vocês?
            - Bem, naquele dia, ao nos despedirmos, ele disse que ligaria pra gente conversar outro dia, porém não ligou, sábado pela manhã fui ao seminário fazer uma visita, vi todos exceto ele, no domingo, na missa, nos encontramos novamente, todos os seminaristas estavam, menos ele, inclusive um estava utilizando o perfume dele, inconfundível, seria capaz de reconhecê-lo em qualquer lugar, um aroma dose, único, assim como ele, estou com medo que ele esteja me evitando agora que sabe que sou gay e gosto dele.
            Irmã Elizabete, com toda sua calma, disse-me que eu estava me precipitando, o medo de perdê-lo estava fazendo isso, visto que para onde ele vai (Rondônia), a possibilidade de se verem algum dia é bem pequena. E prosseguiu:
            - As pessoas aparecem em nossas vidas para cumprir uma tarefa, e o Lucas já cumpriu a dele, tocou seus sentimento, fez você tomar coragem de se olhar de frente, sem medo, de se assumir, agora está na hora dele ir, querer ele perto de você é bom, sempre queremos quem amamos perto de nós, mas isso não está em suas mãos, cada pessoa tem que viver sua vida, ajudando as outras e não prendendo, e..., você foi orgulhoso, devia ter ligado para ele, ter perguntado porque não ligou, está perdendo tempo, a cada dia que passava é um dia a menos que ele estará aqui.
            Bem. Confesso que minha mente entendia bem o que ela acabara de me dizer, mas meu coração não queria entender, meu coração não queria saber se ele ia ou não para Rondônia, se ele era gay ou hetero, se ele me amava ou amava alguma colega de classe, meu coração queria ele ao seu lado...
            Mas foi assim, eu fingi me conformar, e terminamos a conversa.

3 comentários:

  1. Oi menino
    Bom que você teve o apoio dessas duas pessoas nunca fase que você mais precisava. As vezes a gente se acovarda por medo da resposta não ser a que esperamos e acabamos perdendo uma grande oportunidade de vivermos novas emoções. Estou gostando da história.
    Bjux

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  2. "As pessoas entram em nossas vidas por acaso, mas não é por acaso que elas permanecem". É assim que resumo essa sua história. Um abração.

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