quarta-feira, 19 de maio de 2010

Minha história Capitulo 03

Uma Decisão em Meio a Dor

28 de outubro de 2003.

            Esta conversa também foi muito longa, começou as 10:50 da manhã e terminou as 14:00 horas. O tema central desta foi o ano seguinte, o ano de 2004, onde? Como? Com quem?
            Dom João, havia dito para eu voltar para casa e procurar um psicólogo, Padre Pedro acatou a idéia, mas antes pensava em deixar eu progredir no seminário, com tanto que procurasse um psicólogo, Irmã Elizabete, para não discordar do bispo, acatou a sua opinião, mas deu outra sugestão também, ficar fora da família, primeiro porque, para realizar este trabalho com ela, precisava ficar em contato com muita gente e, com a família, isso não aconteceria, pois moram no rosa. Em segundo, a situação financeira da minha família (que morava em outra cidade) não permitia que eu fosse até aquela cidade uma vez por semana, minha mãe ficara viúva 3 anos antes, ganhava pouco e tínhamos uma dívida num hospital da capital no valor de R$3.700,00 devido a uma cirurgia que meu irmão necessitou fazer.
            Eis a maior questão, onde, como e com quem?
            Por fim, decidi procurar uma casa, um lugar para ficar, e um trabalho na cidade, para isso, comecei a procurar amigos, colegas, conhecidos das comunidades, comecei a sair muito nos horários mais livres, meus colegas do seminário começaram a questionar, estavam notando algo estranho, estavam curiosos para saber o que estava acontecendo, mas só quatro neste mundo sabiam, Padre Pedro, Irmã Elizabete, Dom João e eu,  e assim permaneceria.
            Nesta conversa, também contei como havia sido a conversa com Dom João, a má impressão que tive e o preconceito que deixou transparecer.
            Por fim, acabei descobrindo um grande preconceito que estava escondido dentro de mim mesmo, chorei muito, não conseguia me aceitar como homossexual, como gay, me considerava um erro da natureza.

            Irmã Elizabete também começou a chorar. Em todas as vezes que chorei, nunca havia sentido lágrimas tão amargas como aquelas. Talvez na tentativa de me acalmar, pediu que eu escolhesse um número de zero a dez, escolhi o seis, pediu para que eu fizesse contato com a criança dentro de mim, com a minha criança quando tinha seis anos de idade e chamá-la para conversar, pois ela podia me contar muita coisa que eu não sabia. Pediu que eu conversasse com ela, que dissesse a ela tudo que estava sentindo, tudo que estava a anos entalado, me sufocando, que fizesse isso através de um texto, “- como você é destro, escreva tudo que sentir necessidade com sua mão direita, quando sua criança for responder, escreva com a mão esquerda”, texto este que transcrevo aqui:

            - Fofo, vem aqui um pouquinho, deixe o carrinho ai, preciso conversar com você. Estou passando por alguns problemas, estou muito mal comigo mesmo, sei que você pode me ajudar. É difícil aceitar, mas já aconteceu e não há como mudar. Eu preciso que você me conte como eu faço, o que tenho que fazer para me aceitar como sou?
            - Você já sabe, se você não se aceitar como é, você nunca será feliz. Tantas pessoas nascem cheias de problemas, cegas, surdas, sem as pernas ou braços, isso é contra a lei da natureza, mas essas pessoas não escolheram, nem seus pais escolheram isso para elas, a final de contas, quais os pais que querem ver os filhos sofrerem? Você é completo, perfeito, pode brincar, cantar, dançar, trabalhar. Aproveite tudo isso para sua felicidade!
            - Obrigado Fofo, muito obrigado, pode voltar a brincar...não, espere.... Quem nasce cego, surdo, mudo, sem um braço ou uma perna, é porque a mãe teve alguma doença durante a gravidez, ou ocorreu algum tipo de má formação do feto devido a uma série de fatores, mas eu, porque eu sou assim?
            - Meu anjo, meu querido amigo, as vezes acontecem certas coisas que não são possíveis serem resolvidas descobrindo como ocorreu ou o porque ocorreu. Não está ao nosso alcance mudarmos tudo que não nos agrada. O que acontece é que seus pais, quando sua mãe estava grávida, provavelmente desejaram uma garotinha, pois o primeiro filho já era um menino...
            - Tudo bem Fofo, mesmo que seja por isso, é difícil aceitar esta situação de castidade eterna obrigatória, se eu quiser ficar dentro dos padrões morais da sociedade. Hoje estou bem, pois, mesmo tendo o bispo não muito a meu favor, ainda quero sr padre, mas, e se amanhã eu resolver sair? Perceber que o fundamental, o principal, o desejo maior, já não é mais este? É difícil perceber que terei de rejeitar meus desejos, meus instintos naturais, mesmo não sendo normais, são naturais, pois assim fui feito, e quando o celibato já não fizer parte da minha opção de vida? Não tiver mais o sentido que tem? Percebo que será difícil morrer sem saber o que é um beijo, mesmo que na boca de um outro homem, mas é por quem sinto atração, será difícil viver “livre”, sem uma carícia, um afeto, sem alguém em quem poder depositar o meu amor, os meus sentimentos, sabendo que me entenderá.
            - Meu anjo, quando sentimos alguma coisa, que não segue os padrões da sociedade, que sabemos que nos tornará mal vistos, temos que tentar utilizar esta força, essa energia, em uma outra atividade, , mas sei que as vezes, é difícil fazer esta transferência, pois esta força mexe com todo o nosso ser existencial, faz parte de tudo que nos constitui. Quando não conseguimos, nos tornamos pessoas amargas, nos sentimos infelizes, a única saída que vejo é, sem perder a cabeça, com toda seriedade, tentar ser feliz, nem que para isso tenha que ir morar com um companheiro. Acho isso melhor que passar a vida toda sofrendo por desejos e vontades quase incontroláveis, reprimidas, tentando a vida toda transferir esta energia, sem sucesso. Acho que Deus não vai mandar ninguém para o inferno só por não ter resistido à atração que sentia, afinal de cotas, se Deus é tão compreensivo quanto dizem, entenderá que o mais inocente nessa história toda é a própria pessoa que foi constituída assim.
            - Fofo, o mais difícil para mim mesmo está sendo eu mesmo me aceitar como homossexual, as vezes tenho a impressão que tudo parece um filme...
            - Mas você já sabe que quase 100% dos filmes tem um final feliz. Pense numa coisa, se você não se aceitar, quem vai te aceitar? Tome consciência disso, se você não se aceitar, nem mesmo outro homossexual irá te aceitar. O que você tem que fazer é ser feliz como você é, com aquilo que Deus te deu, sem deixar de lado seus princípios morais.
            - Valeu fofo, foi muito bom conversar com você.

            Este texto, só terminei em caso, já no seminário, durante a conversa, eu apenas o iniciei, talvez para me acalmar um pouco, quando terminamos, estava exausto, super cansado, não conseguia pensar em nada, apenas tinha vontade sentar e chorar, não conseguia acreditar que aquilo estava acontecendo comigo.

8 comentários:

  1. Obrigado pelos elogios e por te em adicionado em seu blog.

    Voltarei sempre aqui.

    abraços de luz e paz.



    Hugo

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  2. Olá querido... seja bem vindo ao meu brÓgui sempre... Obrigado pelos elogios!!! Seguindo você também!!!

    ***

    xD

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  3. Oi, querido. O seu Blog é lindo!!!. Vai pro meus favoritos no bloguito mesmo. Amei*********
    Beijos e Boas-Vindas!!!
    Renata

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  4. Olá, Garoto Cientista. Se gosta de poesia e música é gente boa. Junte-se mesmo a nós. Um abraço e grato pelas palavras lá no blog.
    ///
    Bem, sobre preconceito, muuito antes de se falar em criar leis que coibem o preconceito(aliás, o bom seria que nem fosse necessário existir a lei, e sim a consciência de todos, mas enquanto isso... lei neles. Voltando, muito antes de de falar em criar leias contra isso, tive vários amigos gays, muito inteligentes, simpáticos, cordiais e acima de tudo me respeitavam por ser hetero. Divisão é idiotice. Nem se fossem todos perfeitos, o que não são, isso seria tolerável. Enquanto isso a sociedade está uma grande porcaria. Mentem o tempo todo, passam o dia tramando contra o colega de trabalho, falando do vizinho e vão preocupar de execrar alguém só porque é gay ou negro? Hipocrisia é palavra de ordem no Brasil. Assunto longo, nem gosto de começar a falar porque preconceito me vira o estômago. obrigado por me seguir no blog. Também o seguirei

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  5. Também me tornei seu seguidor. Obrigado pelos seus comentários.
    Um grande abraço.

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  6. Garoto Cientista, gostei do nome que adotaste e do título do blog.
    Li um pouco de tua história e percebi que é um jovem, sincero, transparente, e verdadeiro.
    Isso é bom e considero uma virtude.
    Mas sabemos que tudo tem um preço, mas com preço ou não, eu estive aqui e quero lhe aplaudir pela coragem.
    Quero deixar meu afetuoso abraço, um beijo em teu coração, e meu sincero respeito pela tua pessoa. Posso te seguir?
    Quando quiser apareça e seja bem vindo.

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  7. viva valeu ,gosto de pessoas do meu estilo,.,.obrigado por visitar omeu blog

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  8. Olá amigo venho de novo e agradeço tua visita ao blog.
    Abraços fraternos.

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